Contribuições Pragmáticas para a Organização dos Recursos Humanos em Saúde e para a História da Profissão Médica no Brasil: à Obra de Maria Cecília Donnangelo
A chamada crise da saúde a que se assiste hoje aponta para um certo desgaste de seus modelos anteriores. Concepções que supõem a ciência e a técnica como arcabouços inesgotáveis de respostas para o desenvolvimento da saúde e a incapacidade do Estado em suportar a crescente necessidade de atenção à saúde são alguns dos tópicos apontados, pelo menos nas duas últimas décadas, como questões fundamentais a serem pensadas e articuladas. É sentida, do mesmo modo, a ausência de uma renovação da área de atuação dos profissionais da saúde, bem como a formulação de novos pressupostos que redirecionem as pesquisas e práticas. E será a saúde coletiva um campo de saber capaz de estabelecer um novo diálogo entre as práticas médicas e a produção do conhecimento, superando o biologismo dominante e sua dependência do modelo médico hegemônico? Nesse sentido, tornou-se imperativo identificar uma “nova positividade” na articulação entre as dimensões objetivas e subjetivas do campo social da saúde – relacionando, em novos moldes e perspectivas, as ciências sociais, a vida cotidiana e as ciências atuariais, ao mesmo tempo em que se considera a constituição dos sujeitos sociais. Aqui pretende-se contribuir para esse debate, resgatando algumas reflexões que nortearam a saúde coletiva brasileira nas três últimas décadas e a dimensão que foram ganhando com o passar dos anos na voz de alguns de seus principais interlocutores. É por esse viés que a publicação se aproxima de Maria Cecília Ferro Donnangelo e de seu tempo, pois seus estudos e suas formulações, somados a toda uma produção realizada por seus pares e alunos a partir dos anos 1970, geraram profundas modificações na organização do pensamento médico, incorporando as demandas sociais à saúde na chamada educação médica e viabilizando discussões, a partir da saúde coletiva, no âmbito das políticas públicas a serem implementadas.